Expectativas

Passei a semana inteira pensando no porquê de esperarmos tanto de certas coisas e, principalmente, na razão de ficarmos tão devastados quando aquilo que esperamos não se concretiza.Quando nossos planos são desfeitos, nossas metas não são alcançadas, nossas esperanças escoam pelo ralo e a tristeza que sentimos é maior do que podemos imaginar. Talvez, a dor exista justamente por não imaginar. Não imaginamos o cenário em que esses planos não acontecem. Colocamos toda a fé na realização.

A gente sabe que dói ter um desejo frustrado. Mas, por outro lado, sabemos melhor ainda que não se deve criar expectativas. Sabemos tão bem que fazemos até memes com relação a isso, de tão conhecida que é a ideia. Então, por que continuamos?

Essa projeção que a gente cria na nossa cabeça de como o outro é, como ele deve se portar, como devemos ser tratados, como a uma relação deve ser, ou como será seu futuro a curto/médio/longo prazo, da viagem que esperamos fazer, do emprego que vamos conseguir, etc, é, para a maioria das pessoas, tão maléfica quanto o consumo de crack. E a gente tem o conhecimento disso! Ainda assim, involuntariamente (ou não), a gente acaba fazendo de novo.

Reza a lenda que "a expectativa é a mãe da merda", que "é melhor criar porcos, porque se nada der certo, a gente ainda terá bacon", ou "galinhas, porque a gente ainda terá ovos (ou fazer macumba)." Mas começo a crer que a expectativa é algo intrínseco ao ser humano. É o que nos move em direção a vários objetivos. É a esperança que insistimos em ter. No amor, na carreira, em várias áreas da vida. Talvez, não ter expectativas nos torne até pessoas menos propensas à dor, mas creio que também poderá nos tornar pessoas mais cínicas, mais frias, menos dispostas a realizar sonhos, mais conformadas com realidades ruins.

Nunca vivi do outro lado para saber, mas gostaria. Nem que fosse pelo conhecimento da situação. Só pra ver como é conhecer alguém de quem realmente se gosta e não imaginar um relacionamento com essa pessoa. Ter um grupo de amigos que nunca te decepcionaria ou fosse perfeitamente unido como em Friends ou How I Met Your Mother. Se candidatar a uma vaga na empresa dos seus sonhos e não se ver trabalhando lá. Não se imaginar tirando uma foto com a Torre Eiffel ao fundo, mesmo que o salário mal dê pra comprar uma passagem de ônibus.

Esperar coisas da vida e das pessoas nos mantêm na caminhada. Mas ainda precisamos (eu preciso) percorrer um longo caminho na aprendizagem do não-sofrimento ao ver um fato tão esperado se distanciar ou morrer.
Talvez criar expectativas seja algo realmente ruim. Mas, talvez, não tê-las também não seja algo bom. E talvez, só talvez, o que a gente realmente precisa é saber lidar com o sentimento de uma esperança que se mostra inútil, de um desejo subitamente assassinado pela realidade, sem nunca deixar de esperar.


Então hoje, deixo-vos um texto de Martha Medeiros, que expressa quase que perfeitamente tudo o que eu não consigo.

"Definitivo

Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional..."

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